Com um compromisso coletivo e uma visão comum é possível erradicar as situações de sem-abrigo

Com um compromisso coletivo e uma visão comum é possível erradicar as situações de sem-abrigo

Américo Nave, diretor executivo e sócio fundador da CRESCER, conta com 24 anos de experiência na implementação e coordenação de projetos de intervenção comunitária. Em entrevista à Associação Avenida, fala-nos de dois projetos inovadores, atualmente apoiados pela Associação, que promovem a inclusão e a formação laboral de pessoas em situação de sem abrigo. Uma oportunidade para conhecer melhor os projetos É UM RESTAURANTE e o É UMA CASA, assim como os atuais desafios da organização e formas de ser solidário.

Há quanto tempo é que existe a Crescer e qual é o seu principal foco de ação?

A CRESCER foi fundada em 2001, e atua junto de pessoas em situação de vulnerabilidade, nomeadamente, pessoas em situação de sem abrigo, pessoas que consomem substâncias psicoativas, refugiados e migrantes, com o objetivo de promover a sua saúde, a redução de riscos e a sua inclusão na comunidade, através de projetos de intervenção comunitária.

As pessoas em condição de sem-abrigo têm aumentado exponencialmente nos últimos 5 anos. Qual é a vossa perceção da realidade atual na cidade de Lisboa?

A nossa perceção é a de que o aumento do número de pessoas nesta condição, evidenciam a necessidade de uma resposta estruturada, inclusiva e duradoura, que vá além de soluções temporárias. Consideramos que a condição de sem abrigo está diretamente ligada à dificuldade de acesso à habitação e quando estamos numa crise da habitação é natural que estes números cresçam.

A Associação Avenida tem no É UM RESTAURANTE um membro que considera muito especial, não só pelas excelentes propostas gastronómicas, mas, acima de tudo porque é um exemplo de como os negócios sociais podem ser bem-sucedidos. Quer explicar o que distingue este restaurante?

O É UM RESTAURANTE foi o primeiro negócio social criado pela CRESCER, em 2019, com um duplo propósito: oferecer uma experiência gastronómica com padrões elevados de qualidade, com pratos criativos e bem elaborados e ao mesmo tempo, promover a capacitação e integração profissional de pessoas em situação de vulnerabilidade; por outro, gerar uma fonte de rendimento sustentável para a Associação. O É UM RESTAURANTE distingue-se por ser muito mais do que um espaço gastronómico. É um projeto social que oferece oportunidades de formação e emprego a pessoas em situação de vulnerabilidade, promovendo a sua inclusão e dignidade. Ao mesmo tempo, garante uma experiência gastronómica de elevada qualidade, provando que negócios com impacto social podem ser competitivos e sustentáveis. É um exemplo de como é possível unir propósito e excelência.

O Chef Nuno Bergonse é responsável por criar as cartas do restaurante. É também uma fonte de inspiração para a equipa?

Sim! O Chef Nuno Bergonse abraçou desde o início o desafio de ser o Chef consultor dos nossos restaurantes. O feedback muito positivo que temos recebido ao longo destes anos, nomeadamente pela qualidade da comida, deve-se, sem dúvida, ao conhecimento e à criatividade que o Chef tem colocado ao serviço dos nossos projetos. Para a equipa, é uma fonte de inspiração e aprendizagem, contribuindo não só para a excelência gastronómica, mas também para o crescimento profissional dos formandos.

A Associação Avenida contribuiu este ano com vários equipamentos para a cozinha do É UM RESTAURANTE, assim como fardas para a equipa. Qual é a importância deste tipo de ajudas?

São muito importantes. Apesar de estarmos num processo contínuo de melhoria, a nossa principal área de atuação não é a restauração, mas sim os projetos de intervenção social junto de pessoas em situação de vulnerabilidade. Por isso, contar com este tipo de contributos é sempre uma mais-valia, pois permite-nos melhorar a qualidade do serviço que prestamos aos nossos clientes e, ao mesmo tempo, reforçar a sustentabilidade dos nossos projetos.

O objetivo do vosso projeto é dar formação e experiência na restauração, capacitar pessoas para entrar no mercado de trabalho. Há um tempo médio de permanência para quem trabalha no É um Restaurante?

Após o período de formação, os formandos, com o apoio da nossa equipa, são incentivados a procurar um trabalho que vá ao encontro dos seus interesses e objetivos pessoais, podendo ou não estar ligado à área da restauração. Em alguns casos, há formandos que acabam por ser integrados nos negócios sociais da CRESCER, como o “É UM CATERING”, que presta serviços de catering e representa uma oportunidade de continuidade profissional dentro da nossa estrutura.

Pode partilhar alguns exemplos de sucesso relacionados com este projeto? 

Sim, partilhamos dois exemplos:
O primeiro é o do formando C., que, através da formação, conseguiu reativar rotinas de trabalho, ter acompanhamento médico e obter uma prótese dentária que lhe aumentou a autoestima e melhorou a sua saúde oral, facilitando consequentemente a sua integração profissional. Hoje trabalha e consegue pagar autonomamente o seu quarto e as despesas.

O percurso do A. é um exemplo inspirador de superação e reconstrução. Após concluir a formação, ganhou novas rotinas que lhe devolveram estabilidade e foco, encontrando trabalho como jardineiro, uma área pela qual é verdadeiramente apaixonado. Este progresso refletiu-se também no aumento da sua autoestima e no retomar do acesso a cuidados de saúde, nomeadamente consultas de medicina geral e estomatologia. Ao longo deste processo, o A. construiu novas amizades, fortalecendo a sua rede de apoio e consolidando o seu caminho de inclusão e bem-estar.

O “É UMA CASA (Housing First)”, um projeto com origem nos EUA é outra das iniciativas da CRESCER que tem tido um impacto muito direto na inclusão de pessoas sem-abrigo. Há quanto tempo existe em Portugal?

A metodologia Housing First foi implementada pela primeira vez em Portugal em 2009, e a CRESCER iniciou o seu próprio projeto “É UMA CASA, Lisboa Housing First” em 2013. Iniciámos um projeto piloto de 7 casas com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e hoje gerimos 152 casas nos municípios de Lisboa, Almada e Loures, com o apoio das respetivas Câmaras Municipais, e no caso de Lisboa e Loures, também com o Instituto da Segurança Social. Fazemos ainda supervisão a outras entidades que estão a implementar esta metodologia nos Açores, Algarve e Porto.

Em que consiste?

O projeto “É UMA CASA, Housing First” garante acesso imediato a habitação individual e dispersa, na cidade, para pessoas em situação de sem-abrigo crónica, ou seja, que viveram, em média, 15 anos na rua (algumas, mais de 20 anos). O principal objetivo é promover a integração plena das pessoas, facilitando a ligação aos serviços de saúde, apoio social e estruturas comunitárias, bem como à vizinhança e à comunidade local, de forma a reconstruir redes de pertença e apoio.

Quantas pessoas foram abrangidas pelo mesmo?

No total, mais de 170 pessoas já foram abrangidas pelo projeto de Housing First implementado pela CRESCER.

O É UMA CASA, inclui o acompanhamento técnico e social da CRESCER e pressupõe também um compromisso por parte de quem é apoiado. Como funciona na prática? 

Os beneficiários contam com o suporte de uma equipa técnica especializada e assinam um acordo de compromisso com a Associação, estabelecendo as seguintes condições:

  • Realização de, no mínimo, 6 visitas mensais por parte desta equipa.
  • Contribuição de 30% de quaisquer rendimentos que tenham (quando aplicável)

Qual é a taxa de sucesso?

O projeto apresenta uma taxa de sucesso de 90%, o que significa que, entre as mais de 170 pessoas acompanhadas, nove em cada dez não regressaram à situação de sem-abrigo.

A pensar no conforto e nas necessidades básicas destes beneficiários, a Associação Avenida doou recentemente 30 eletrodomésticos. De que forma é que outras entidades, pessoas ou empresas se podem juntar à CRESCER na oferta do que mais precisam?

As pessoas e empresas podem apoiar a CRESCER de várias formas, contribuindo para o bem-estar e a inclusão das pessoas que acompanhamos.

As pessoas individualmente podem apoiar-nos das seguintes formas:

  • Consignação de IRS: doando 1% do IRS à CRESCER, sem qualquer custo para si (NIF: 505 483 599).
  • Donativos diretos, através do MB Way, para o contacto 965 063 318.
  • Doação de bens: aceitamos roupa, bens de higiene pessoal (incluindo menstrual), bens alimentares, produtos de limpeza para habitações e pequenos eletrodomésticos (por exemplo, micro-ondas ou camas em bom estado);
  • Visitando os nossos restaurantes, contribuindo assim para a sustentabilidade dos nossos negócios sociais.

As formas de as empresas nos apoiarem abrangem:

  • Investir no projeto “É UMA HABITAÇÃO”, que visa criar soluções de habitação acessível. Para mais informações podem contactar-nos através do email: info@crescer.org.
  • Fazer donativos diretos para os nossos projetos, contribuindo para a sua sustentabilidade.
  • Empregar pessoas que estiveram em situação de vulnerabilidade, através do projeto “Porta Aberta”. Mais informações: https://crescer.org/projetos/porta-aberta/
  • Contratar os nossos serviços de Catering, através do email eventos@crescer.org

A Organização tem algum mecanismo (Open Day por exemplo) que permita a

No âmbito do Congresso que organizamos (“É UM CONGRESSO, Housing First & Harm Reduction”), os participantes têm a oportunidade de realizar visitas ao terreno e conhecer de perto os nossos projetos. Fora desse contexto, estamos sempre disponíveis para receber qualquer pessoa (doadores, parceiros, potenciais apoiantes, estudantes, académicos, outras organizações, etc) que queiram conhecer o nosso trabalho no terreno e compreender o impacto das nossas intervenções.

Ao todo quantos projetos têm neste momento a Crescer na promoção da inclusão e em que áreas?

Atualmente, a CRESCER tem a decorrer 30 projetos de intervenção comunitária, junto de pessoas em situação de sem abrigo, pessoas que consomem substâncias psicoativas, refugiados e migrantes, e sete negócios sociais.

Qual é o balanço que faz do equilíbrio entre os apoios públicos e privados, que a organização tem tido ao longo do tempo e qual é a importância dos contributos da sociedade civil e empresas para a resolução destas problemáticas.

O financiamento público ainda representa mais de 70% do total de financiamento da CRESCER. No entanto, a Associação tem procurado reforçar a sua sustentabilidade financeira, através dos negócios sociais e do envolvimento de parceiros privados e de doadores individuais. Temos o objetivo, para um futuro próximo o financiamento com receitas próprias e de privados ultrapasse a barreira dos 50%.
Acreditamos, com base na nossa experiência e nos resultados alcançados, que é possível erradicar as situações de sem-abrigo. Para atingir esse objetivo, é essencial um compromisso coletivo, contando com o apoio da sociedade civil e das empresas para concretizarmos esta visão comum.

Na promoção da inclusão em geral, quais são os principais desafios com que se depara a CRESCER?

O principal desafio que enfrentamos é o estigma associado às populações mais vulneráveis, nomeadamente às pessoas em situação de sem abrigo. Persistem ideias preconcebidas como a de que as pessoas “não querem sair da rua” ou “não são capazes de viver numa casa”.
A nossa experiência demonstra precisamente o contrário: nunca encontrámos ninguém que recusasse integrar o projeto “É UMA CASA, Housing First” quando lhe era dada a oportunidade de ter uma casa e o acompanhamento adequado.

Que mensagem quer deixar a quem nos lê sobre o vosso trabalho e os vossos desafios?
Queremos agradecer a todos os que têm apoiado o nosso trabalho ao longo destes anos, em especial aos nossos parceiros públicos, privados, do terceiro setor e pessoas individuais. Deixamos ainda um agradecimento muito especial à Associação Avenida.

Gostávamos também de reforçar a nossa convicção de que ter pessoas a viver na rua não é uma inevitabilidade. Enquanto sociedade, podemos e devemos alcançar o objetivo de garantir uma casa para todas as pessoas.

Convidamos todos que se identificam com esta missão a assinarem o Manifesto “Uma Casa para Todas as Pessoas” e a juntarem-se a nós na construção de uma comunidade mais justa, solidária e inclusiva. Para nós, é uma questão de investimento: pelas nossas contas, garantir uma casa para todas as pessoas em situação de sem-abrigo no país representaria apenas 0,1% do PIB por ano, durante 15 anos.

BIO:

Américo Nave

Psicólogo clínico, trabalha com alguns dos grupos mais vulneráveis, incluindo pessoas que consomem substâncias psicoativas, pessoas em situação de sem abrigo, requerentes de asilo, refugiados e migrantes. Conta com 24 anos de experiência profissional na implementação e coordenação de projetos de Redução de Riscos com equipas multidisciplinares.

Mais recentemente, tem vindo a investir na área dos negócios sociais, implementando projetos que promovem a formação e a inclusão laboral de pessoas em situação de vulnerabilidade, bem como outros projetos inovadores baseados na filosofia da Redução de Riscos, todos desenvolvidos pela CRESCER, Associação da qual é Diretor Executivo e sócio fundador.