Maria João Bahia

Maria João Bahia

Sou filha do escultor Charters de Almeida e nasci no meio da Arte.

Não é metáfora, é memória. É cheiro de barro. É pó de pedra. É a casa cheia de maquetes, de livros abertos, de conversas que começavam sérias e acabavam em cor, em música, em gargalhadas.
Na minha infância tive muitas experiências, muitas vivências. Vivi rodeada de artistas. Escultores, pintores, músicos, bailarinos, artistas que falavam com tempo, músicos que afinavam o silêncio, arquitetos que desenhavam o futuro num guardanapo.
Foi ali, nesse caos sagrado, que aprendi a primeira lição da minha vida: tudo o que é belo exige tempo, risco e devoção.

A joalharia apareceu como aparece o amor. Sem aviso
Era paixão. Era a vontade de pegar naquilo que é pequeno e torná-lo eterno.
Então fui aprender. Não na escola. Na oficina.
Fui ter com os “oficiais”. Aqueles homens que guardam segredos como quem guarda relíquias, e fui para a oficina do Manuel Alcino, no Porto.
Eu, única menina, no meio de dezenas de mestres. O som do torno. O fogo da solda. O metal a ganhar forma sob as minhas mãos. Aprendi cinzelagem. Aprendi a respeitar o peso do martelo. Aprendi que um acabamento perfeito não se vê. Sente-se.
Riam-se de mim no início. “Isto não é para meninas”. Mas eu não estava ali para agradar. Estava ali porque não conseguia viver sem aquilo. Cada peça grande que terminávamos era uma vitória silenciosa. E cada segredo que me contavam era um presente.
Mais tarde, na oficina Raul Ferreira, encontrei um mestre que viu em mim algo além da teimosia. Viu vontade. E ensinou-me tudo. Sem reter. Sem medo. Ensinou-me que técnica sem alma é só mecânica. E que alma sem técnica não resiste.
Só muito mais tarde nasceu a minha marca.

Porque uma marca não se cria. Acontece. Quando já não se consegue guardar o que temos dentro nós. E é difícil. Muito difícil.
Porque marca é coerência quando ninguém está a ver. É identidade quando o mercado grita para sermos iguais. É criatividade quando já fizemos tudo. É honestidade quando seria mais fácil mentir. E acima de tudo, é aceitação. É o mundo dizer: “sim, isto fala comigo”.

Nestes mais de 40 anos de trabalho, tive o privilégio de ter tido projetos que me tiraram o sono. Peças que nasceram de um desenho, de uma ideia às 3 da manhã. Coleções que exigiram meses de silêncio. Desafios que me fizeram crescer, chorar e recomeçar.
Perguntam-me muitas vezes: “Maria João, de onde vem a sua criatividade?”
Eu calo-me e sorrio, porque a verdade é que não sei explicar.
Chamo-lhe graça. Chamo-lhe Deus. Chamo-lhe mistério.
A criatividade não se comanda. Visita-nos. E quando vem, temos de estar prontos, com as mãos limpas e o coração disponível para trabalhar muito por ela.
Se pensarmos bem, viver é isto: uma realidade irreal.
Andamos entre o que sonhamos e o que conseguimos tocar. Entre o ouro e a ideia do ouro.
A loja da Avenida da Liberdade fechou. Por razões que a vida impõe e que nós não controlamos.
Porque uma loja não é só uma montra. É história. São muitas, muitas histórias. São clientes que viraram amigos. São desconhecidos que nos deixam recordações incríveis e levam memórias para a vida. São sonhos que se realizam na vida dos outros e em nós.
Foram anos maravilhosos, cheios de momentos inesquecíveis.

Mas o fim de um ciclo é sempre o início de outro. Hoje estou a criar um novo mundo.
Um projeto diferente, mais intimista, onde a experiência do desconhecido, é mais surpreendente. A minha casa e o meu trabalho já não estão separados. Coabitam. Quero receber as pessoas não numa montra, mas numa vivência.

Que entrem, que se sentem, bebam um chá, e experimentem a peça como quem experimenta uma memória.
Não vendo apenas joias. Não vendo apenas prata. Ofereço experiência. Ofereço tempo. Ofereço exclusividade. Porque o verdadeiro luxo já não é ter.
O verdadeiro luxo é ser. É um momento que só essa pessoa vai viver. É uma peça que só ela vai usar.

É a história que cada um tem.

Maria João Bahia.